Já no segundo, com a presença de Mônica Mion e Flávia Fontes (jornalista e crítica de dança), o mote para a discussão foi o vídeo "Veronique Doisneau", do francês Jerome Bell, que faz uma crítica, às vezes irônica, às vezes melancólica, sobre os bastidores do ballet clássico.
Os dois vídeos poderão em breve ser vistos aqui no blog. Abaixo estão trechos transcritos dos encontros:
Encontro de 14 de março de 2011
(a partir do vídeo "O Lago dos Cisnes e suas (re)leituras"
Convidadas: Inês Bogéa e Mônica Mion
Inês Bogéa:
Em primeiro lugar eu queria agradecer o convite, é sempre uma delicia falar de dança, ainda mais inspirado por esses grandes artistas que foram mostrados nessas várias versões de “O Lago dos Cisnes”. Então, para começar a nossa conversa, vamos voltar um pouco. Quando começa essa dança que a gente chama de “clássica”? Essa dança começa nas cortes da Renascença, principalmente na época do Rei Luís XIV. Lá em 1583 temos um marco que se chama “ballet comique de la reigne” que é uma festa de casamento. Nesse momento, a dança que surge é para requintar os gestos das pessoas. Ela surge como uma possibilidade de ascenção social. As pessoas faziam aula de dança para poder participar das festas da corte. E os reis faziam festas incríveis pra mostrar o seu poder econômico, o seu poder politico. A dança cênica nasce política. Nasce para falar o quão importante eram certos reis. (faz referência ao filme “Vatel”). O Rei Luís XIV foi muito importante porque ele foi um rei bailarino, e foi transformando o seu reino num grande potencial de desenvolvimento da dança clássica. Da academia real de dança e musica, vai surgir o ballet da Opera de Paris. Quando ele começa, estuda a dança para ter boas maneiras; boas maneiras de sentar, de entrar no palácio, de lidar com a pessoa ao lado, e ao poucos vai se tornando cada vez mais o protagonista da cena. E lança aquele famoso ballet de la nuit, ballet da noite, onde ele é o Rei Sol, que é aquele que expulsa as sombras do seu reino, que dá luz pro seu reino. E ele, antes de se aposentar, funda a primeira escola de dança em 1661, que vai ser mais tarde a Opera de Paris. Mas é só em 1681 que as mulheres vão fazer parte desta trupe dançante profissional. Então eu voltei nesse momento da história para a gente entender que o surgimento da dança clássica já tinha um propósito muito claro: falar da sociedade onde eles viviam. A dança cênica, como a arte, procura dialogar com a sua sociedade, com o seu tempo. Hoje a gente olha para trás, falar de reis e rainhas parece muito distante da gente, mas não era naquele tempo. E o ballet clássico, essa grande chave que a gente costuma designar, inclui vários gêneros. Nesse momento, do Luís XIV, era o ballet de corte. Depois vai ter o ballet de ação, e o grande teórico do ballet de ação é Jean Noverre. Desde aquela época, o Noverre reclamava de uma dança sem expressão. Por volta de 1760, ele já dizia, que não se devia dançar de máscaras, que cobriam a expressão do rosto, que era necessária uma dança que falasse mais dos sentimentos e da alma humana, que não fosse uma dança só plástica. Lendo as cartas de Noverre, a gente vê o quanto elas são atuais hoje. Depois desse ballet de ação surge o famoso ballet romântico, que também tem várias subdivisões, e é esse momento em que surge o tutu e a sapatilha de ponta, que já existia antes, mas foi se aperfeiçoando, e é em Les Sylphides que se dança pela primeira vez um ballet inteiro nas pontas. É Marie Taglioni que fazia isso. Por que a sapatilha de ponta? Por que ela surge por volta de 1832, nessa época…? Porque o mundo está se organizando em torno de um ideal de que o homem é capaz de transcender as coisas e a natureza, encontrar um ideal através da racionalização, há um culto das idéias. E a sapatilha de ponta faz com que o homem tente sair do chão, levitar. Não só a sapatilha de ponta; o arabesque; é a hora que surgem os vários mecanismos de transporte de pessoas voando na cena. Uma idéia de um mundo ideal que se contrapõe ao mundo terreno. Os ballets românticos têm sempre um primeiro ato que mostra um homem na sua vida mais terrena, mais cotidiana, e um segundo em que ele tenta transcender sua materia, transcender os limites humanos e encontrar um mundo ideal, das idéias.
O “Lago”, que a gente viu, é um ballet da época clássica. A temática é parecida. Mas a forma é diferente. Qual é a temática? Esse homem dividido ao meio entre essa racionalidade excessiva, e a natureza que o chama pra outros lugares. O que é que muda na forma? Se a gente for estudar a dança romântica, a mulher está sempre fora do eixo. Com aquele tutu romântico, ela levita transportada pelo homem. E ele está sempre atrás dela na cena (por exemplo, em Giselle, não tem nenhum grande solo masculino). Já no ballet clássico clássico, como o Lago dos Cisnes, no do Nureyev principalmente, volta o homem à cena. Ele divide a cena com a mulher. O tutu já mostra toda a linha da perna dela. Isso tudo muda a qualidade técnica dos artistas, muda o princípio de relação humana entre o homem e a mulher. Já estamos no final do século XIX, e o reposnsável por isso é Marius Petipa. Escolher o Lago como ponto de partida para a discussão sobre dança é importante porque se pensa na igualdade entre o homem e a mulher., mesmo que essa mulher ainda seja idealizada.
Por que o Lago dos Cisnes passa pelas gerações e nunca fica velho? Eu me emocionei vendo esses trechos. Fala das relações humanas, fala do amor, da possibilidade do encontro, da solidão, do lado escuro do ser humano atravees do bruxo… Mostra o contraponto, essa moça que de dia é um cisne e de noite pode voltar a ser ela mesma. E vimos que é um texto que sofre mudanças ao longo do tempo. Mesmo os pedaços parecidos não são iguais. Nem na coreografia nem na interpretação. Peguemos dois exemplos: a Margot Fonteyn com seus gestos dos braços, e a Maya Plissetskaya. Totalmente diferente. Naqueles momento que ela encontra o príncipe, tudo se deu de forma diferente, o encontro de deu de forma diferente, o movimento do braço era outro, mas as duas dizem a mesma coisa. A coreografia é a mesma, mas os gestos são diferentes, até a roupa. Tinha até aquele que a bailarina tinha um tutu bandeja e as outras em volta com o tutu romântico. Isso muda a percepção da platéia. Muda a maneira como eu olho para o ballet. O figurino diz muito sobre a cena. O figurino conta a história da dança através do tempo.
No video de Veronique Doisneau, uma bailarina do corpo de baile fala sobre sua questão. O que é ser uma bailarina de corpo de baile? Por que tem um corpo de baile e um principal? Lá no início da história, o centro da cena era o rei. Até hoje, no Municipal, por exemplo, no centro da plateia tem o camarote do governador, igualzinho: o centro da cena é o centro da platéia. Ela foi organizada desta forma. E ao mesmo tempo surge a perspectiva italiana. A cena é uma janela para o mundo. Na sociedade daquela época, e até hoje, a gente tem as pessoas que compoem a cena e aquelas que se destacam, compondo como se fosse um quadro. E no final do sec XIX, tem os Czares na Rússia. A bailarina que está no corpo de baile pode se sentir no seu lugar ou pode se sentir deslocada.
Todos têm sonhos. Mas se pensarmos nas outras profissões, isso sempre vale.
Mas essa coisa do corpo de baile, existe, mesmo nos contemporaneos. Mesmo na versao do Mattew Bourne, em que os cisnes sao todos homens, isso existe. E o bruxo é o próprio homem. Ele está assombrando o príncipe, que não sabe se quer ser homossexual ou não. Aí já entra mais uma questão. São os conflitos internos que ele começa a trabalhar. Aqueles que estavam lá no ballet romântico. O homem estava dividido também no ballet romantico. Aqui ele está dividido também entre uma projeção que a sociedade faz do homem que tem que se casar com uma mulher, e ele quer encontrar com outro homem. Nessa versão tem até uma cena de um cabaré, em que uma mulher tenta seduzi-lo, aí tem a mãe opressora… E quem o assombra na verdade é ele mesmo. Já o Mats Ek, debochado, crítico, irônico também coloca esta questão mais psicológica na dança. Ele coloca o príncipe parado diante de uma sensualidade. Ali, os homens e mulheres são cisnes mulheres, é engraçado ver os homens de tutu. Quem são esses seres que atiçam a nossa imaginação, que nos fazem pensar o lado claro e escuro da vida? Por isso O Lago dos Cisnes continua tão atual tanto na versao clássica quanto na contemporânea. Ele fala da gente, dos nossos desejos, dos nossos medos, das nossas emoções. E afinal de contas, para brincar com Balanchine, “o ballet é um grande livro aberto onde cada um de nós reescreve a história da humanidade. Pela potência dos gestos, pela capacidade expressiva dos homens.” Para ele, não precisa de um libretto. É através do encontro de homens com homens e mulheres e mulheres que se dá a leitura de uma dança. Como diz Luís Arrieta, a dança é uma arte que se assiste de corpo a corpo, pessoas falando para outras pessoas através do que há de mais forte na nossa relação: o gesto.
Encontro de 22 de março de 2011
(a partir do vídeo "Veronique Doisneau" - em francês, legendas em inglês) :
Veronique Doisneau parte 1
Veronique Doisneau parte 2
Veronique Doisneau parte 3
Convidadas: Mônica Mion e Flávia Fontes
Mônica Mion
Renata
Pra mim representa uma visão muito pessoal do ballet, onde ela descreve seu cotidiano, sua vida dentro da companhia, seus sonhos, seus gostos e seu drama à beira da aposentadoria.
Mônica Mion
Gisele:
Eu acho que tudo depende como você encara o que você quer fazer.
Patrícia:
O vídeo como obra é mais interessante do que conteúdo em si. O conteúdo ali depende da forma como ele é mostrado, e foi escolhida uma forma que causa estranhamento – o palco vazio, a bailarina descabelada, o modo como ela fala.
Mônica Mion:
O vídeo depende muito do contexto que foi feito. No Brasil, ele passou despercebido, mas França todo mundo conhece a Opera de Paris, ela é um símbolo, conhecem a estrutura. O vídeo causou esse estranhamento por mostrar o lado do bailarino, que aos 42 anos de idade, mesmo ainda podendo dançar tem que se aposentar. O vídeo mostra essa melancolia da ciência do fim da carreira.
Flavia Fontes:
Quando eu vi o vídeo também achei melancólico, é da personalidade dela. O francês adora conversar no mesmo tom de voz. Meus amigos que são do cinema adoraram o lado humano do ballet presente nesse vídeo . A bailarina também se irrita, ela tem frustração como em todas as profissões. Mas eu coloco uma questão, o que é a dança clássica pra vocês, o que ela pode oferecer como arte? Isso toca vocês ou é só um museu no mau sentido, uma coisa empoeirada ?
Mônica Mion:
Para quem tem a dança fazendo parte da sua vida tem uma coisa que é o prazer de dançar, mas que não tem nada a ver com arte, esse prazer pessoal. Eu sempre me perguntei isso: eu estou aqui pelo prazer de dançar ou estou construindo alguma coisa. Porque pra quem gosta, o prazer de dançar é uma coisa indescritível, até mesmo o ensaio, onde você não tem o compromisso do publico. Mas esse prazer não deve ser confundido com a arte.
Ingrid:
Pra mim, a arte e o prazer de dançar não dá pra separar.
Giselle:
Eu faço porque eu acredito. Nada que a gente va fazer sem acreditar é negar o que você é. Pra mim a dança clássica é o inicio de tudo. Sem ela nada teria existido
Mônica Mion:
A contribuição do ballet é porque ele tem um significado no gesto que esta sendo executado. Se a dança não tiver um significado no gesto não é dança, é só forma, só estética.
Minna
Existe uma negação do ballet clássico hoje. O moderno é negar. Eu acredito que o ballet é uma base,uma linguagem pra chegar em outro lugar. Eu sou professora de educação física e ouço dizerem: o ballet é coisa pra poucos, uma coisa difícil então vamos deixar de lado e fazer alguma coisa mais simples. Privar as crianças é a grande perda dessa negação:
Mônica:
Eu não vejo essa negação. Qualquer companhia de ballet pode vir dançar no Credicard Hall e vai lotar todos os dias. O ballet é muito simbólico. O que prejudica é o estereotipo sobre ele, onde existe uma maneira de pensar, uma maneira de ser, uma infantilização do bailarino, como um ser diferente.
(...)
Mas eu também acho que o novo pelo novo é ruim. As pessoas querem o “ineditismo.” Então você já sabe o que tem que fazer para ganhar um Fomento ou um Proac, e essa cultura do novo é ruim.
Flavia Fontes:
Mas o fato de um grupo como vocês existirem mostra que não é um cenário tão preconceituoso assim, é uma questão de querer se expor. Eu sinto um receio de certas pessoas dizerem que fazem ballet clássico por ser uma linguagem já explorada demais.Mas quando você toma o ballet como seu, ele se torna o seu recurso para passar sua mensagem, ele se torna sua voz artística. O Renato Janine Ribeiro tem uma frase de seu livro sobre a dificuldade de ser artista hoje: “o artista deve criar uma obra presente, uma tradição passada, um projeto para o futuro e a língua que inventou praticamente já se esgota ou com ele, artista, ou já com a obra, única, singular que a expôs.”
Então é obvio que além da técnica, você tem que se a ver na sua obra, e saber, como artista, que mensagem você quer transmitir.
Mônica Mion
Eu sempre levei em conta isso ao montar a programação do Balé da Cidade. Tem sempre o espetáculo que conquista o público e obras contemporâneas que abrem as possibilidades do espectador e é preciso saber mediar isso. Por exemplo, quando o Balé fez 40 anos, o Sandro Borelli fez uma versão do Lago dos Cisnes que foi muito polemica, onde eu vi o publico discutindo, alguns batendo palma outros vaiando. Arte também é discussão, ela tem que provocar. Foi a única vez em 34 anos que eu vi isso e saí de lá feliz, porque conseguimos tirar o publico da apatia. Nossa função não é sempre agradar.
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